O mito de Thoth e a panacéia informática
Em alguma publicação perdida no buraco da memória de qualquer mídia social, carinhosamente chamado de feed, restando a pergunta se as publicações existem para serem devoradas por nós, ou pelo buraco da memória, li algo assim:
Era uma vez um programador. Seu portfólio o precedia, ostentava as insígnias de seu labor, brilhavam como o Sol em pleno dia. Um dia foi confrontado, ou melhor: entrevistado. E neste dia foi constatado que o que fora apresentado era na verdade um mistério. Mistério para o autor. Era uma vez um programador, ou, pelo contrário, um impostor?
Não era exatamente assim o texto, mas era bem claro que o portfólio foi todo construído com retalhos extraídos de modelos de linguagem, de LLMs. E que o alfaiate, ainda que habilidoso na costura, não entendia pra que serviam as linhas das tramas costuradas. Muito se pode discutir partindo desse tipo de situação, inclusive as implicações no direito autoral. Mas hoje lembraremos uma outra discussão muito anterior a essa febre dos robôs, que a antecede em milhares de anos, e que podemos observar no Fedro, de Platão.
Sócrates conta que ouvira uma história sobre o dia que Thoth apresentou a Tamuz as artes que havia criado para que fossem dadas a conhecer a todos os egípcios. Apresentando os caracteres gráficos, a escrita, Thoth disse:
Eis, oh Rei, uma arte que tornará os egípcios mais sábios e os ajudará a fortalecer a memória, pois com a escrita descobri o remédio para a memória.
Ao que respondeu Tamuz:
Oh Thoth, mesmo incomparável, uma coisa é inventar uma arte, outra julgar os benefícios ou prejuízos que dela advirão para os outros! Tu neste momento e como inventor da escrita, esperas dela, e com entusiasmo, todo o contrário do que ela pode vir a fazer! Ela tornará os homens mais esquecidos, pois que, sabendo escrever, deixarão de exercitar a memória, confiando apenas nas escrituras, e só se lembrarão de um assunto por força de motivos exteriores, por meio de sinais, e não dos assuntos em si mesmos. Por isso, não inventaste um remédio para a memória, mas sim para a rememoração. Quanto à transmissão do ensino, transmites aos teus alunos, não a sabedoria em si mesma, mas apenas uma aparência de sabedoria, pois passarão a receber uma grande soma de informações sem a respectiva educação! Hão de parecer homens de saber, embora não passem de ignorantes em muitas matérias e tornar-se-ão, por conseqüência, sábios imaginários, em vez de sábios verdadeiros!
Ironicamente este mito nos chegou através da escrita. Mas isso de modo algum invalida o aviso. Na verdade, ele é sempre atual, supera o tempo. Nenhum recurso livra o homem do processo de educação, do entendimento. Nenhum texto tem em si mesmo o conhecimento, considerando, segundo qualquer dicionário, que conhecimento é o ato ou efeito de conhecer. Então não há conhecimento, senão no homem que conhece.
E temos também o aviso, não de Temuz, de homens mais próximos de nossa época como Georges Bernanos em “A França Contra os Robôs”:
O perigo não está nas máquinas, senão teríamos de sonhar o absurdo: destruí-las pela força, à maneira dos iconoclastas que, ao quebrar as imagens, se vangloriam de aniquilar também as crenças. O perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número crescente de homens habituados desde a infância a desejar apenas o que as máquinas podem dar.
A panacéia informática do momento tem suas aplicações, utilidades em potencial, tudo isso. Mas, como poderia estar descrito no Fedro, se fosse escrito hoje, a negligência com nossa a própria educação desemboca numa ironia: encostados em uma so-called inteligência nos tornamos “analfabetos enciclopédicos”, capazes de ser ignorantes em tudo, e tratar de tudo sem nada entender. Computador pode ser utilizado para gerar um mar de texto, mas educação é conosco.
Referências e créditos
- PLATÃO. Fedro. Tradução de Pinharanda Gomes. Lisboa: Guimarães Editores, 1986.
- BERNANOS, Georges. A França Contra os Robôs. Tradução de Lara Christina de Malimpensa. São Paulo: É Realizações, 2018.