A teoria é a inimiga da prática

O princípio das oposições

O conceito de teoria, do inglês theory, do alemão Teorie

Como seria dito naquele desenho: “Em todos esses anos nesta indústria vital”. Em todos esses anos há uma realidade que se destaca como uma das mais recorrentes no ramo de computação, e especialmente a redação de software: a do descrédito da teoria. Descrédito esse que pode chegar ao ponto de mover afirmações, por exemplo, de que curso somente é bom se for 100% prático, ou, num linguajar mais emplumado, hands-on.

De saída, seria interessante uma investigação sobre que idéia os defensores dessa “teoria” têm sobre o que chamam de teoria. Já ouvi afirmações do gênero “em TI a prática é completamente diferente da teoria”, e até hoje fico me perguntando o que será que isso significa. O eletromagnetismo funciona diferente dentro do gabinete? Uma rede estrela possibilita comunicação direta entre todos os dispositivos? A alocação de memória tem algum componente sobrenatural?

Vez ou outra até fico tentado a acreditar que os redatores do LinkedIn, o site mesmo, trabalham com máquinas espirituais de memória infinita, porque ao verificar o consumo de memória de uma aba, somente uma, fico muito surpreso. Muito surpreso com a realidade de que, se o site executar mal na minha máquina, e consumir recursos ao ponto de comprometer outros usos simultâneos, isso significa que meu computador está obsoleto e preciso de uma atualização tecnológica. E nada de memórias espirituais no varejo.

A “prática” que promove a fé

Tão interessante quanto a realidade do descrédito da teoria é o outro lado da moeda: os efeitos da adoração da “prática”.

“Em todos esses anos” já me deparei com situações que prefiro não detalhar. Para dar uma noção, recupero o questionamento de uma outra área: da onde que veio a idéia de que colocar uma garrafa d’água em cima de um “relógio de luz” reduz a conta de energia? Da doutrina sobre eletricidade é que não foi. O exemplo até pode parecer extremo, mas está no mesmo nível de crenças com as quais já tive de lidar. Em situações profissionais.

E não é por acaso. Uma grande fonte de superstições, crenças de toda sorte e mitologias, no sentido moderno da palavra, é a experiência desprovida de critério. Isso é um ponto pacífico.

O milagre da ciência e da computação

Nenhum dos pontos acima ilustrados acima constitui por si fonte de grande indignação. Mas há um elemento que torna as coisas diferentes na computação: a natureza dos objetos de conhecimento e de trabalho.

Ao estudar qualquer realidade material nos deparamos com a seguinte situação: por mais detalhado que seja o nosso modelo mental de algo, ele jamais será plenamente correspondente à realidade, será bastante contingente. E isso promoveu um debate milenar sobre como podem ser compreendidas e descritas as realidades naturais de forma coerente e aproveitável, considerando a realidade contingente do conhecimento, sendo um capítulo mais próximo de nós a elaboração do chamado método científico.

O método científico é um aparato intelectual de elaboração de descrições de fenômenos que, articuladas, possam produzir concepções suficientemente aderentes à articulação dos próprios fenômenos. Este é o fundamento da utilidade do chamado conhecimento científico, que nos permite projetar e construir num nível maior de complexidade, viabilizando o planejamento com mais minúcia e abrangência em plano abstrato.

Partindo daí, a computação trouxe um novo aspecto. A máquina de cômputo, de contas, ou computador, especialmente com a proposta dos computadores programáveis, é construída como uma metamáquina: uma máquina que existe para que se articulem nela outras maquinações. Desta maneira se estabeleceu a chamada abstração computacional.

Em computadores se articulam duas realidades: a estrutura material, a coisa rígida, ou hardware, suporta uma realidade flexível, ou software.

Entendida essa realidade do software, que é um tipo de máquina sutil, podemos deduzir uma característica: não existe tensão entre a linguagem e a realidade, de modo que a descrição do funcionamento da máquina se confunde com a explicação, ou, melhor: a razão da máquina funcionar da forma como funciona é a própria descrição do funcionamento. Eis o milagre da computação. Ao menos enquanto a realidade material não se impõe num evento de OOM ou até um bit flip.

A religião contra o milagre, ou apesar dele

E então voltamos para a “teoria que é completamente diferente da prática”. Que se pode dizer desse tipo de afirmação? Algumas coisas na verdade.

Uma hipótese razoável de origem desse tipo de crença está na chamada experiência de mercado, o que a põe no conjunto que se pode chamar conhecimento de mercado. Essa experiência pode contemplar a atuação em sistemas comerciais, o contato com as mais inusitadas soluções e assim por diante sob claro favorecimento de realidades como o chamado time to market, ou a observação de prazos que não foram negociados da melhor maneira, em detrimento de qualquer doutrina lecionada em cursos universitários, ou até exibidas como distintivo em publicações de mídias sociais.

Aí estamos falando de um outro tipo de realidade material que se impõe. Depois de se deparar com ela é de se compreender a contraposição da doutrina com a vivência profissional. Até porque boa prática nenhuma, por si, paga boleto de quem quer que seja. Mas as palavras aplicadas são outras: teoria e prática.

As idéias têm consequências. Efeito colateral da oposição imprópria da teoria em relação à prática: o risco de desenvolver um desprezo pelo conhecimento teórico até os fundamentos. Isso em uma área que, por característica, este conhecimento pode chegar a ser traduzido como a própria razão de ser das coisas.

Em casos mais extremos o desprezo pelo conhecimento teórico se manifesta como defesas de “processos de aprendizado” que formam homens de neanderthal, que não vão se contaminar com a “teoria” e vão tentar redescobrir o fogo, quando não símios, entronizando a “prática”.

A mudança de perspectiva

Crenças populares e prodígios

Um elemento muito interessante que surge em ambientes sociais sistematicamente defraudados de categorias para expressar as experiências ao lidar com um computador é a chamada janelagem.

Janelagem é um tipo cunhado pelo Prof. Paulo Kretcheu. Este tipo se refere a vícios que procedem de concepção incongruente com a realidade, e que geralmente se originam na experiência de uso de um sistema operacional chamado Windows (que seria Janelas numa tradução direta). Não entre leigos, que por definição não terão categorias próprias para falar de uma realidade da computação, mas entre técnicos, que em tese deveriam saber com o que estão lidando, ou entusiastas que se propõem à utilização mais proficiente do sistema operacional.

Esses vícios se manifestam na confusão de computador com sistema operacional, sistema operacional com ambiente gráfico, uma forma muito particular de animismo em que se atribui a um sistema vontade e até humor, a visão do sistema operacional como uma realidade caótica e indomável em que se pode só “tentar” intervenções, o troubleshooting por insistência (ou insanidade) e outras tantas formas. Também há expressões típicas nos relatos de dificuldades como “ele não reconheceu”, que pode acontecer ao falar de um hardware que por algum motivo não está funcionando.

E esse tipo é muito recorrente. Quem nunca tentou “resolver um problema” reiniciando o computador, reinstalando aplicação e até o sistema operacional, vulgo “formatando o PC”, que atire a primeira pedra. Ou tentou e tentou coisas no computador e “ele insistiu em não funcionar”. O pior é quando funciona, “do nada”, ou “funcionou depois de reiniciar 15 vezes”. Isso sem falar na tendência de requisitar um consolidado de texto de LLM, material para nortear, sem critério. Essas coisas vão lentamente sedimentando, e a prática vai se tornando hábito.

O apelo científico

Citando mais uma vez o Prof. Paulo Kretcheu, em seu curso para profissionais e entusiastas, é apresentada uma outra forma de pensar, conforme as propostas:

  • Básico é o que é relativo à base, não superficial e muito menos de menor importância. Não há como se tornar autônomo sem uma base sólida.
  • Resolver um problema é consequência de entender qual sua causa. Mais importante do que funcionar é saber porque funcionou.
  • Primeiro o termômetro, o estetoscópio e o esfigmomanômetro. Só depois o bisturi.
  • Não há o que se compare com a certeza inexorável do teste.

Para desfazer a janelagem, são apresentados os fundamentos e então realizam-se atividades de dissecação de um sistema operacional que não fomente vício cognitivo, por preferência do professor um GNU/Linux. E então vai-se formando uma outra espécie de conhecimento, através da prática fundamentada na teoria, e conduzida com metodologia: um conhecimento aderente à realidade. Não existe qualquer conflito entre a teoria e a prática, pelo contrário, uma enriquece a outra.

Dado que a pessoa instalou um GNU/Linux e o Wi-Fi não está funcionando, por que não está funcionando? Quais os requisitos para que funcione uma placa de Wi-Fi? Como verificar o cumprimento destes requisitos? Quais as hipóteses razoáveis, determinado qual o requisito não atendido? Qual a forma de intervir para validar a hipótese eleita?

De inúmeras investigações bem-sucedidas, e algumas que não foi possível terminar, vai emergindo a natureza dos fenômenos que são objeto de estudo. De forma dinâmica, prática e fundamentada.

A realidade se impondo

Não podemos fingir que a natureza do trabalho em campo é a mesma de uma investigação científica conduzida com todo tempo do mundo, isso vai de encontro com a realidade. Mas também não podemos cair no fatalismo e concluir: “se não dá pra conduzir o processo de forma rigorosamente científica, vamos na moda cowboy”.

Como diziam os antigos, em tudo existe uma justa medida. Os prazos impossíveis, o desespero que só dura até a entrega e outras realidades do trabalho em TI continuarão existindo, mas ainda podemos, ou até devemos se estivermos atuando profissionalmente, desenvolver nosso trabalho sobre fundamentos e proceder com o rigor científico que for possível e razoável. Em respeito aos clientes e a si também, porque não é justo nos valermos das dificuldades para nos anularmos intelectualmente e, desta maneira, abrir mão até de um pouco da nossa humanidade.

Não há qualquer oposição entre teoria e prática.